Blog
Almanaque

Alexandre Cherman

Atravessando o mar estreito

O título de hoje não é uma homenagem a uma das minhas séries favoritas (tanto na TV quanto nos livros); ele faz referência ao Mar Mediterrâneo, mesmo que (pelo meu pouco conhecimento de história) esta não seja uma denominação usada pelas civilizações do passado para descrever este mar. “Mar interno” faria mais justiça aos aspectos históricos… Então talvez o titulo seja sim um reconhecimento à mitologia fictícia da série “Game of Thrones”. Mas estou divagando…

Falávamos sobre o nosso calendário. E em como o segundo rei de Roma (Numa Pompílio) criou dois meses adicionais para incorporar o período invernal, que simplesmente não era contabilizado pelo calendário original de Rômulo: Februarius e Januarius.

Com isso ele acabou chegando ao número “mágico” de 365 dias em um ano, e aparentemente se deu por satisfeito. Ele sabia que algum tipo de correção deveria ser feito e, posteriormente, intercalações foram se tornaram uma poderosa ferramenta de controle nas mãos de senadores da república romana.

Enquanto isso, no Egito…

O Egito vive sob condições adversas. Seus cidadãos dependem fortemente do Rio Nilo, e é apenas natural presumirmos que quanto maior for a vazão do rio, mais fácil será a vida dos egípcios antigos.

Não deve ser uma surpresa descobrir que o primeiro método de contabilizar o tempo no Egito era simplesmente uma vara graduada fixa dentro do rio. À medida que as águas subiam, o verão reinava; quando o rio começava a baixar, era o prenúncio do inverno.

Por melhor que esse “calendário” fosse (é comumente conhecido como nilômetro; literalmente “a medida do Nilo”), ele não tem muito poder preditivo. Seria tão mais eficiente se o fazendeiro egípcio médio pudesse saber com antecedência que haveria a cheia… Ele poderia preparar a terra e as sementes, convocar familiares, contratar mão de obra…

Após milhares de anos prestando atenção ao Nilo, astrônomos egípcios perceberam que este ciclo também podia ser lido no céu. Quando Sirius, a estrela alfa do Cão Maior, a mais brilhante do céu noturno, tinha seu nascer helíaco (nascia praticamente junto com o Sol), estava na hora de se preparar para a cheia do rio. E com este ponteiro celeste, eles logo perceberam que o ciclo durava 365 dias.

Eles pegaram esses 365 dias e dividiram em 13 pedaços. Doze pedaços de 30 dias cada, que somavam juntos 360 dias, e um pedaço extra com apenas cinco dias. Os doze pedaços regulares equivalem aos nossos meses; o 13º pedaço é algo que não temos em nosso calendário atual. Eles chamavam esses dias de “dias celestes”.

Depois do ultimo dia do último mês do ano, eles faziam uma pausa e celebravam os cinco dias celestes, antes do novo ano começar. Pode até parecer com os nossos feriadões de final de ano, mas vale ressaltar que os dias celestes não pertenciam a nenhum ano!

Nesse sentido, eles se parecem mais com o inverno romulano. E como no calendário de Rômulo, um ano terminava, mas o outro não começava de imediato!

Prestando muita atenção a Sirius, eles logo perceberam que era preciso adicionar um sexto dia celeste a cada quarto anos. E assim começa a história do nosso ano bissexto… ■

 

Dia do Astrônomo
O Natal e o Solstício