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Singularidades

José Roberto

Da Via Láctea ao Quarto Minguante

Que o firmamento é permanente fonte de inspiração ninguém tem duvida. O que (incrivelmente!) nem todos conhecem são as belas palavras de alguns famosos poetas que também escreveram sobre sua paixão pelas belezas do cosmos.

Neste post procuramos resgatar três deles, trazendo um pouquinho de suas histórias antes de apresentar (lembrar?) seus poemas sobre o céu estrelado.

Recomendo ler bem devagar, saboreando cada verso…

Augusto dos Anjos
Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu no município de Sapé, na Paraíba, em 20 de abril de 1884.

Sua obra é extremamente original. Augusto dos Anjos é considerado um dos poetas mais críticos de sua época, sendo identificado como o mais importante poeta do pré-modernismo. Embora sua poesia também revele algumas raízes do simbolismo, retratando, por exemplo, o apreço pela morte, a angústia, além do uso de metáforas.

Augusto dos Anjos faleceu na cidade de Leopoldina, Minas Gerais, no dia 12 de novembro de 1914.

Tristezas de um Quarto Minguante

Quarto Minguante! E, embora a lua o aclare,
Este Engenho Pau d’Arco é muito triste…
Nos engenhos da várzea não existe
Talvez um outro que se lhe equipare!

Do observatório em que eu estou situado
A lua magra, quando a noite cresce,
Vista, através do vidro azul, parece
Um paralelepípedo quebrado!

O sono esmaga o encéfalo do povo.
Tenho 300 quilos no epigastro…
Dói-me a cabeça. Agora a cara do astro
Lembra a metade de uma casca de ovo.

Eu, 1912

 

Fernando Pessoa
Fernando Antônio Nogueira Pessoa foi um dos mais importantes escritores e poetas do modernismo em Portugal.

Nascido em Lisboa no dia 13 de junho de 1888, usou tanto seu próprio nome para assinar suas obras quanto pseudônimos (heterônimos). Os heterônimos de Fernando Pessoa tinham personalidade própria e características literárias diferenciadas. Alguns dos mais famosos eram: Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro.

Fernando Pessoa morreu no dia 30 de novembro de 1935 na mesma cidade em que nasceu.

Tenho dó das estrelas

Tenho dó das estrelas
Luzindo há tanto tempo,
Há tanto tempo…
Tenho dó delas.

Não haverá um cansaço
Das coisas.
De todas as coisas,
Como das pernas ou de um braço?

Um cansaço de existir,
De ser, Só de ser,
O ser triste brilhar ou sorrir…

Não haverá, enfim,
Para as coisas que são,
Não a morte, mas sim
Uma outra espécie de fim,
Ou uma grande razão —
Qualquer coisa assim
Como um perdão?

Poesias, 1942, Ed. Ática, Lisboa

 

Olavo Bilac
Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac nasceu em 16 de dezembro de 1865 no Rio de Janeiro.

Ele foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e é o autor do “Hino à Bandeira” escrito em 1889.

Em conjunto com Raimundo Correia e Alberto de Oliveira, Olavo Bilac formava a tríade Parnasiana brasileira. Ele era conhecido por sua atenção à literatura infantil mas, principalmente, pela participação cívica, sendo um ativo republicano e nacionalista.

Olavo Bilac faleceu no Rio de Janeiro no dia 28 de dezembro de 1918.

Via Láctea

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso! E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto,
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E ao vir do Sol, saudoso e em pranto
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Têm o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

Soneto XIII

 

Caminhando pelo Sistema Solar
O lado brilhante do Universo