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Almanaque

Alexandre Cherman

Interstício

De volta à nossa programação regular (nossa série sobre a história do calendário) e ao período que eu estava com medo de abordar…

Entre Numa Pompílio e Júlio César, há que se viver uns 650 anos de história romana. E nem todos esses anos foram bons para o nosso calendário. Na verdade, quase nenhum foi!

Eu não sou historiador, então desde já me desculpo e prometo me concentrar tão somente no calendário. E a chave para nossa jornada é um palavrão: incomensurabilidade. (Se você gosta de jogar forca com as crianças, considere essa palavra uma “arma de destruição em massa”…)

Incomensurabilidade é a propriedade de certas quantidades que não têm medida comum entre si. Para os nossos objetivos, podemos nos concentrar na duração da rotação da Terra e no período de sua revolução.

Nosso planeta gira ao redor de si, e completa uma volta a cada 23 horas, 56 minutos e 4 segundos. Ele também se move ao redor do Sol, em uma órbita que dura 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 47,5 segundos. Com números tão quebrados, é impossível encaixarmos uma quantidade exata de rotações dentro de uma revolução. Não há maneira simples de criarmos um ano (revolução) a partir dos dias (rotações). Essas quantidades são incomensuráveis.

Mas simples é um bom jeito de descrever o calendário de Numa. Seu ano tinha 365 dias, e simplesmente ignorava as horas restantes. Obviamente, era um calendário fadado ao insucesso, já que logo ele deixaria de representar bem o ciclo das estações. E de fato esse calendário fracassou!

Depois que Roma se tornou uma república, os senadores se preocuparam com isso, criando, vez ou outra (e nunca de forma regular), meses extras para tentar devolver a sincronia entre o calendário e as estações. Mas os senadores foram senadores, e este mecanismo de intercalação logo foi deturpado, tornando-se uma arma política para criar anos mais longos em benefício de aliados (ou anos mais curtos, para expulsar logo a oposição do poder).

No final das contas, depois de mais de 600 anos de abuso não-científico, as estações estavam completamente fora de sincronia com o calendário civil. E isso precisava ser resolvido. E foi! Falaremos sobre isso na semana que vem… ■

 

O primeiro dia da semana
Dia do Astrônomo