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Almanaque

Alexandre Cherman

Lua Azul

O calendário gregoriano, em uso no Brasil e em grande parte do mundo, é um calendário solar. Ele foi construído para bem acompanhar o ciclo das estações do ano, causado pelo movimento de revolução da Terra ao redor do Sol. Por isso, não precisamos nos preocupar muito se quisermos saber quando é o equinócio de outono no Hemisfério Sul. Será em 21 ou 22 de março.

Mas, por outro lado, se quisermos saber quando acontece a Lua Nova neste mesmo mês de março, nada podemos dizer sem consultar um almanaque ou anuário. Lembre-se: nosso calendário foi construído para obedecer ao ciclo do Sol, não o ciclo da Lua.

(No espectro oposto, um calendário lunar, como o muçulmano, tem as fases da Lua sempre em datas fixas. A Lua Nova sempre acontece no dia primeiro de cada mês. Em compensação, para sabermos sobre equinócios e solstícios, deveremos consultar um almanaque ou anuário…)

O ciclo da Lua dura 29,5 dias. Os meses do nosso calendário gregoriano, com a única exceção de fevereiro, têm 30 ou 31 dias. Assim, se em algum mês tivermos a Lua Cheia no dia primeiro ou no dia 2, teremos uma outra Lua Cheia no mesmo mês! Esta segunda Lua Cheia em um mesmo mês é chamada de Lua Azul.

O nome não podia ser mais esdrúxulo, pois a Lua não muda de cor. Por que usá-lo, então?

Esta expressão é tradução literal da expressão em inglês blue moon. Há controvérsias a respeito da origem desta expressão na língua inglesa, mas é certo que a associação da Lua com a cor azul já era usada na época de Shakespeare (final do século XVI, início do século XVII).

A enciclopédia online Wikipedia cita um panfleto de 1528 como o primeiro registro de uma “lua azul”: If they say the moon is blue, we must believe that it is true (Se eles dizem que a Lua é azul, devemos acreditar que é verdade). Esta máxima já traz a conotação de algo absurdo e raro para a “lua azul”, e vemos que a escolha da cor se deve a um fator puramente fonético: blue rima com true.

Em uma adaptação à nossa cultura popular atual, dizer, na Inglaterra do século XVI, que algo aconteceria na “lua azul”, equivaleria a dizer, nos dias de hoje, em qualquer grande cidade brasileira, que algo aconteceria “no dia de São Nunca”.

Visualmente, isso é até acurado, pois é raro, mas acontece de a Lua ficar com uma tonalidade azulada. Depende fortemente da quantidade e do tamanho das partículas em suspensão na atmosfera, e foi registrado, sem sombra de dúvidas, pela última vez, em 1833, quando o vulcão Krakatoa entrou em erupção.

Mas, definitivamente, não é deste tipo de Lua Azul que estamos falando. O conceito de Lua Azul entra no calendário através do Almanaque dos Fazendeiros (Farmers’ Almanac), publicado nos Estados Unidos.

Por ser uma publicação destinada aos fazendeiros, e se preocupar fundamentalmente com as estações do ano, o “ano” do Almanaque não começava em 1o de janeiro e terminava em 31 de dezembro. Para o Almanaque dos Fazendeiros, o ano começava em 22 de dezembro (solstício de inverno do Hemisfério Norte) e terminava, obviamente, no dia 21 de dezembro do ano seguinte.

Este período normalmente possui 12 Luas Cheias. Mas 12 lunações duram cerca de 354 dias, e um ano tem cerca de 365 dias. Logo, é natural que certos anos tenham 13 Luas Cheias, e não 12.

O Almanaque estava interessado nas estações do ano; as Luas Cheias eram batizadas com nomes próprios, de fácil apreensão. Sem entrar em detalhes da língua inglesa, de modo geral, havia a Lua do Início da Estação, a Segunda Lua e a Lua do Final da Estação. Mas se em um ano houvesse 13 Luas Cheias, alguma estação, naquele ano, teria quatro (e não três) Luas Cheias.

Pelos nomes utilizados, é fácil entender qual das quatro Luas Cheias da estação precisava de um novo nome: a terceira Lua Cheia. Os editores do Almanaque tomaram emprestado a expressão que significava “evento raro”, e batizaram a terceira Lua Cheia de uma estação com quatro Luas Cheias de Lua Azul.

Foi assim que esta expressão ganhou ares sérios para a Astronomia. A partir da publicação da Lua Azul pelo Farmers’ Almanac, tal expressão deixou de ser subjetiva e se transformou em algo mensurável e exato.

Em um artigo publicado na revista Sky and Telescope de março de 1946, James Hugh Pruett cometeu um erro de interpretação em relação às regras criadas pelo Farmers’ Almanac (que eram realmente complicadas e obscuras). Pruett escreveu: “Seven times in 19 years there were — and still are — 13 full moons in a year. This gives 11 months with one full moon each and one with two. This second in a month, so I interpret it, was called Blue Moon”.

Traduzindo: “sete vezes em 19 anos houve — e ainda há — 13 Luas Cheias em um ano. Isso nos dá 11 meses com uma Lua Cheia cada e um mês com duas. Esta segunda Lua Cheia em um mês, eu interpretei assim, era chamada de Lua Azul”.

O autor deixa claro que isso é uma interpretação dele (e uma interpretação errada, como já vimos). Para o Farmers’ Almanac, não custa reiterar, a Lua Azul era a terceira Lua Cheia em uma estação que tivesse quatro!

(É curioso notar que Pruett, em seu artigo de 1946, cita o Almanaque de 1937. Se ele o tivesse consultado em detalhes, teria visto que a Lua Azul listada no Almanaque acontecia em 21 de agosto e, portanto, não era a segunda Lua Cheia do mês de agosto! Teria visto também que 1937 fora um ano com 12 Luas Cheias apenas…)

A revista Sky and Telescope adotou esta nova definição de Pruett, e passou a divulgar que a Lua Azul era, de fato, a segunda Lua Cheia de um dado mês. Tal definição entrou de vez para o inconsciente coletivo americano ao ser lida em um programa de rádio muito popular, de alcance nacional, Star Date, em 31 de janeiro de 1980. Além disso, tornou-se uma das perguntas do jogo de tabuleiro Trivial Pursuit (equivalente ao nosso Master).

Assim chegamos ao fato: neste mês de outubro, teremos uma Lua Azul. Às 18h5min do dia 1o, tivemos Lua Cheia; e às 11h49min do dia 31, teremos outra Lua Cheia. Percebam que se transformarmos isso para um outro fuso horário, pode haver alguma alteração. Na Nova Zelândia, as Luas Cheias serão às 10h5min do dia 2 e à 3h49min do dia 1o de novembro. Ou seja, outubro não terá Lua Azul para um morador de Auckland! Mas novembro terá…

De um jeito ou de outro, não custa lembrar: a versão atual da expressão Lua Azul significa a segunda Lua Cheia de um mês. Não é tão raro, mas também não é algo que acontece a toda hora. ■